sábado, 17 de julho de 2010
Sê
Quem estivesse na Rua Harmônica e entrasse no bar que existe próximo ao fim da rua (que não tem saída) logo veria um casal discutindo sobre, basicamente, qualquer coisa. Ou todas as coisas. Poderia, ainda, pedir uma cerveja gelada enquanto aguarda o prato do dia, o qual é sempre melhor que o do dia anterior, e contemplar a discussão.
Ela parecia ser bem maior enquanto falava. Bem assim como uma gata que se arma para parecer maior antes da investida. A cabeleira loira tornara-se prata sob o luar e os olhos negros indicavam a que ponto(s) olhar na face branca. Ele parecia não se assustar com a intimidação dela e sustentava durante todo o tempo um sorriso de canto de boca.
Quando chegava a vez dele de falar, ela impunha ao ambiente uma serenidade que poucas vezes apareceu por aquelas bandas. Ele continuava com seu sorriso sem alterar a sua postura no embate.
Ficaram a noite inteira conversando no bar. Por fim, ele deu-se conta que concordaria com qualquer coisa que ela dissesse. E ela percebeu que havia muito tempo desde que alguém a ouviu com tamanha atenção.
Ela cheirava a chocolate.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Preto e Branco
domingo, 27 de junho de 2010
Carta à Senhorita Mãos Geladas
Na entrada, enquanto eu remexia minha carteira, lembrei de como você pegava logo as notas mais fáceis para o troco diante da minha sempre falta de jeito com as cédulas. Quando fomos procurar algum lugar pra sentar, lembrei da sua mania de limpeza e de como detestava bancos sujos, e que sempre tirava da bolsa algum lenço ou coisa do tipo e tentava amenizar o problema. Na hora de pedir algo pra comer, visualizei você ali, perguntando ao garçom se o prato que queria pedir tinha carne de porco ou algum tipo de bebida alcoólica, já que não podia comer nada daquilo por causa da sua religião.
Apreciava a idéia de que, de alguma forma, a saudade fosse amenizada com o tempo, mas ao que parece, ele é só combustível. Tudo aquilo com que eu implicava me faz falta.
Embora nada do que eu disser possa trazê-la de volta, eu precisava contar que ainda sinto falta das suas pequenas mão geladas.
sábado, 26 de junho de 2010
Umas palavras
domingo, 13 de junho de 2010
O Coração Amarelo
Sempre pensei que ele sendo quem era teria um coração completamente diferente. Tá certo que eu nunca tinha parado pra pensar bem em como eu achava que era seu coração, mas eu sabia que era diferente. Mas um diferente legal, tipo White Stripes, saca? É, isso mesmo. Tipo White Stripes: um negócio diferente, mas legal, que atrai a atenção das pessoas pela forma única que é. Talvez ele tivesse um coração assim, grande, com listras brancas, vermelhas e pretas e que fosse um virtuose da guitarra! Mas amarelo?! Amarelo não é cor de coração! Amarelo é a cor que a gente usa pra pintar o sol quando estamos no jardim de infância e a professora manda colorir um desenho da nossa casa. Amarelo é cor de banana. Poxa, ele me deu um coração cor-de-banana?! Se ele não fosse quem ele era, eu teria jogado aquele coração cor-de-banana sem graça bem longe na mesma hora que ele me entregou.
Nos conhecemos na escola. Ele era de uma séria anterior à minha. Os amigos dele eram do tipo popular, sabe, daqueles que são conhecidos e conhecem a escola inteira, e a gente acabou se conhecendo. Apesar dos amigos, ele não era bem do tipo popular. Tirando o pessoal da sala dele, eu e duas amigas minhas, ele não falava com mais ninguém. Sem contar que boa parte do pessoal da sala dele não ia muito lá com a sua cara. Pessoalmente, nunca entendi isso. Hero era até um cara legal, inteligente e se esforçava muito para ser divertido. Vai ver que esse pessoal se encaixa naquilo que dizem de a gente temer o que não entende. Se você pensar assim, fica mais fácil sacar o motivo dele ter poucos amigos.
Tem também esse negócio do nome, né? Pô, Hero?! Os pais dele também não ajudaram em nada! Que droga de nome prum garoto! O que aconteceu com Antonio, João, Pedro, Manuel... Com esse nome o pessoal já chega pensando que ele é um daqueles carinhas metidos à besta.
Ele salvou a minha pele várias vezes enquanto ainda estávamos na escola. Teve uma vez que ele até fingiu ser meu namorado numa festa que fomos! Quando lembro dele não consigo pensar em nada de ruim em toda nossa história de amizade. Não, não é que eu só me lembro do que quero lembrar, que seriam as coisas boas, é que realmente não há nada de ruim.
Depois que a escola acabou e entramos em faculdades diferentes continuamos nos falando, mas já não era a mesma coisa. Foi nesse período que ele me deu o coração amarelo. Tinha acabado de voltar de uma viagem e me ligou dizendo que tinha uma coisa importante pra me dar. Claro que eu nunca imaginei que ele queria me dar o coração. Pra falar a verdade, pensei que isso nunca iria acontecer, pois a fase dele me dar o coração era quando estávamos na escola, que éramos grandes amigos. Ele chegou e me deu o coração. Simples assim. Será que ele havia mudado tanto? E que porcaria de amiga eu era que não havia percebido? Fiquei surpresa quando eu desembrulhei o pacote e vi o coração. Acho que ele não percebeu minha surpresa em ver o amarelo do coração - na verdade, eu torço pra isso!
Por muito tempo eu fiquei reclamando do coração estranho que ele me deu, mas só agora percebo que eu é que sou a estranha e nem deveria ter recebido nada. Ele me deu o coração. Era tudo o que ele podia dar. Era aquilo que ele tinha pra me dar e eu só critiquei. A verdade é que eu fiquei com medo de dar o meu coração. Acho que isso o teria feito muito feliz. Só conseguia pensar que, assim como eu, ele só iria ver o lado estranho. Nem passou pela minha cabeça que ele era a pessoa mais doce que eu conheci e que, ao contrário de mim, ele só via o lado bom das coisas. Hoje eu tenho dois corações, ele nenhum.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Pensa
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Queria que você estivesse aqui
- Vamos por aqui.
- Pra onde?
- Sei lá! Vamos pegar o metrô e sair dessa chuva. Tô com muito frio!
Ela gostava de dar as ordens. Estava no auge dos seus vinte e poucos anos e tinha deixado os pais e seu país natal havia algum tempo. Era uma dessas garotas fortes e decididas que estão sempre com pressa e com dezenas de coisas superimportantes para fazer que encontramos em toda grande cidade. Quanto a ele... bem, digamos que prefiria uma cerveja gelada com o pessoal da faculdade a tirar dez na prova do dia seguinte. Oito tá bom demais!
Na estação, uma banda com 4 caras tocava tentando ganhar algum trocado. Claro que ela não deu atenção alguma a eles - estava ocupada demais puxando-o apressada para a plataforma.
- Eu não quero que você vá.
Ficaram ali abraçados por um bom tempo. Ela já não sentia o frio de quando entraram na estação. E como numa cena dessas comédias românticas que a gente assiste mesmo já sabendo como vai acabar, aquela banda começa a tocar uma música que ele conhecia bem.
- Wish you were here.
- O quê?
- A música. Wish you were here. Pink Floyd.
- Desculpa. Não conheço.
Sussurrou no ouvido dela as primeiras estrofes. Após isso, finalmente o beijo aconteceu. Poderia ter acontecido antes, já que passaram a tarde inteira andando por Paris, mas você conhece algum lugar mais romântico que uma estação de metrô?!
- Tenho que ir!
- Espera...
- Tá tarde, tenho que ir! Desculpa! Me manda um e-mail quando chegar no hotel?
- Tudo bem.
E foi. Wish you were here.