domingo, 4 de setembro de 2011

Noites vazias

Numa dessas noites vazias de quartas-feiras eu lembrei do Zé Jorge. A gente costumava assistir juntos aos jogos na tevê numa tentativa de preencher esta noite tão indecisa. Mas isso eram em outros tempos, em que o futebol era jogado com mais talento e graça. Se o Zé Jorge ainda estivesse por aqui, as nossas tentativas teriam sido todas em vão.
Quando ele se mudou para o apartamento do lado eu era ainda uma criança, no auge dos meus dez anos, mas ele já era velho. Não velhinho, desses de cinquenta anos. Eu digo velho, velho mesmo. Depois de um tempo, comecei a achar que ele já havia nascido velho, como no conto do Fitzgerald. Mas ao contrário da ficção, Zé foi ficando mais velho a cada ano.
Nos conhecemos quando eu, jogando futebol na quadra do condomínio, acertei uma bolada na janela dele. Achando que tinha arrumado uma baita de uma confusão, me supreendi quando ele apareceu sorridente na janela me devolvendo a bola e dizendo que eu "tinha que treinar mais até para quebrar a vidraça!". Assim começou nossa amizade, baseada no futebol.
O tempo foi passando, eu crescendo e ele só envelhecendo! Nessa época. já adolescente, eu comecei a perceber umas coisas que não havia notado quando criança. Zé Jorge quase não saia de casa, e tinha uma rotina bem rígida com relação aos banhos diários, horário de dormir e de comer. Ele tinha muito medo de adoecer, e na sua idade aquilo "seria o fim". Em nossas conversas ele me ensinou um monte de coisas que moldaram meu caráter. Contudo, ele deixava escapar também os desejos de sua vida que nunca realizara, como andar de avião.
Zé sabia tudo sobre aviação, e tinha um monte de livros sobre aviões. Se bobeasse ele até sabia como construir um! Mas viajar de avião, isso ele nunca tinha feito. "Vai que é um piloto novato, que não conhece os procedimentos. No fim, eu que pago o pato!". Minhas tentativas em dizer que aquilo tudo era besteira foram todas em vão.
E como tinha medo de avião, nunca saltou de paraquedas. Assim como, quando jovem, nunca andou de bicicleta, de moto, ou de patins. Pelo mesmo motivo, nunca frequentou um parque de diversões. Zé era bem paranóico com esse assunto, e tudo que fazia era pensado e mesurado. Se ele considerasse perigoso, não fazia.
Um dia, voltando da faculdade, percebi uma grande movimentação no prédio, e de alguma maneira sabia que tinha relação com o Zé. Ele teve uma parada cardíaca enquanto assistia um jogo na tevê.
Depois desse dia, percebi como as noites de quarta eram vazias. Fiquei triste pela partida do Zé, não somente por sentir sua falta, mas pelo que ele fez (e deixou de fazer). Zé Jorge viveu com medo. Morreu velhinho, mas sem aprender a viver.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Babi

Em meio à toda aquela água do mar que o fazia afundar na areia molhada, a única coisa que Beto parecia sentir eram os pés dela sobre os dele. Nada de mar, nem de vento, barulho...nada! Beto sabia que aquele era um desses momentos que a gente leva por muito tempo, e que num belo domingo de sol preguiçoso é gostoso de se lembrar. Eu não faço a mínima ideia de como ele poderia saber aquilo, mas ele sabia. Na verdade, é curioso o fato de que qualquer um que estivesse no lugar dele teria certeza que aqueles pezinhos seriam lembrados por um longo pedaço de vida.

E enquanto ela repousava a cabeça no peito dele, a única coisa que parecia sentir eram as batidas fortes do coração de Beto. Deu-se conta que aquele cenário jamais lhe ocorrera antes, e que Beto seria um dos últimos a quem ela teria algum interesse. Por um milhão de motivos ele seria uma última opção, mas agora não lhe via nada à cabeça. Mais uma dessas coisas que a gente não consegue - e eu aposto que nunca consiga, explicar.

Quem visse de longe o jovem casal abraçado na beirinha do mar poderia facilmente confundí-los com uma só pessoa. Como naquele joguinho de criança, tetris, pareciam encaixados. Encaixados por suas diferenças. Diferenças marcantes e vibrantes, como ela gostar de Mozart e ele de Ramones. Ela de velocidade e ele nem saber dirigir.

O sol ia escondendo-se no horizonte e aquele abraço encaminhava-se ao fim. Fim? Depois daquele fim de tarde, Beto precisaria dos pés dela para caminhar.

sábado, 18 de dezembro de 2010

A madrugada é imensa

Acorda sobressaltada no meio da noite. Ouvira algum barulho na casa que a acordou. Podia ser qualquer coisa. Podia ser qualquer um! O pânico que tomou conta de seu corpo não lhe permitia nenhuma reação. Respirar era difícil, que dirá gritar por socorro ou pensar em alguma estratégia para se defender. Ficou deitada, esperando.
Os olhos na escuridão fitando a porta trancada, que a qualquer instante podia ser arrombada por aquele intruso. Veio à cabeça lembranças alegres de criança, o primeiro beijo, o primeiro dia na escola, o dia em que passou no vestibular, primeiro emprego, a briga com o melhor amigo que tivera na semana anterior. Dizem que, antes da morte, é possível ver toda sua vida perante seus olhos numa fração de segundo. Ela podia atestar que o que dizem é verdade.
Aquele tempo entre o despertar e a espera pela entrada iminente daquele invasor em seu quarto parecia interminável. Desejou, por muitas vezes, estar morta antes mesmo de ter acordado – teria lhe poupado a angústia. Tentou fechar os olhos e fechar e voltar a dormir, ou quem sabe, acordar do pior dos pesadelos. Tentativas em vão.
A noite sem lua era a mais quente da temporada. E mesmo que estivesse nevando lá fora, ela estaria suando da mesma maneira aqui dentro. Se pelo menos fosse mais religiosa, poderia ter rezado por todo o tempo de espera, mas esse não era o caso. Não gastou suas últimas horas tentando imaginar como seria o invasor, nem qual a motivação do sujeito ao invadir a casa, ou o que ele faria com ela dentro de instantes e muito menos rezando para um Deus que ela não acreditava. Não. Ela não jogaria fora a postura de uma vida só por que parecia chegar ao fim o seu tempo. Ela apenas esperou.
Os olhos já acostumavam com a penumbra e os objetos tomavam suas devidas formas e proporções na escuridão. Ela continuava esperando por alguma ação. Parecia um filme ruim. Continuou esperando por algo que não vinha. Depois de mais um tempo pensando a respeito, talvez o barulho que a fizera acordar tivesse mesmo vindo de apenas um sonho ruim. Desejou muito estar certa e concentrou-se em ouvir a casa - que emitia somente um leve gotejar na torneira da cozinha. Dormiu contando os pingos da torneira e lembrando o que o ex-melhor amigo lhe dissera semanas atrás. A madrugada é imensa.

sábado, 21 de agosto de 2010

Branco e Preto

Magra, mãos pequenas, estatura mediana. Nem se fizesse a careta mais feia conseguiria assustar alguém. Exalava simpatia. Pele branquinha, cabelos lisos escuros. Não dava pra distinguir onde terminava a pupila e onde começava a íris: era tudo negro. Engraçado isso, pois se, como dizem, os olhos são a janela da alma, os dela deveriam ser claros como um céu de verão. Bem, talvez não se deva acreditar em tudo o que dizem.

Não é que ela fosse o tipo perfeita - era mais do tipo que você sente enorme prazer somente em dividir a mesma sala. Acho que todo mundo conhece alguém assim. Se não conhece, deveria conhecer. Já!

Um tempo atrás, enquanto caminhava de volta para casa depois do trabalho, lembrei de Lucy. Na verdade, busquei com grande esforço alguém que em alguma ocasião tenha discutido, se irritado ou até mesmo levantado a voz com ela. Sem sucesso. Isso é bem estranho, na verdade. Ainda mais se for considerado os tempos difíceis que vivemos, em que qualquer boa ação é sempre vista como um pretexto para se conseguir qualquer coisa. Tempo difícil para os sonhadores.

De fato isso me intrigou. Recordações do tempo em que passei com ela vieram à mil. Como num quebra-cabeças, eu tentava encaixar todas as partes da velha Lucy que agora me parecia um grande mistério, jogando por terra a garota amável que sustentava na memória.

Vez ou outra eu lembrava de Lucy. Curioso isso, por que agora percebo que sempre foram em ocasiões de grande stress, de problemas e dessa baboseira toda que nossas regrinhas estúpidas nos obrigam a conviver. E Lucy sempre me ajudava. Talvez porque estar com ela tenha sido a melhor coisa que já experimentei na vida. Era uma sensação estranha. Era como fazer parte de algum mundo em que as coisas fossem perfeitamente cabíveis, em que se podia colocar o pé sujo no sofá branco e andar com roupas que não estão na moda sem ser repreendido por ninguém. Era como pegar todas suas planilhas, papéis do seguro, contas e jogar tudo pro ar, e em meio à chuva de papéis sentir-se muito melhor, como um astronauta ou uma estrela do rock. Lucy era pura utopia.

Contudo, era esquisito que ela sentisse exatamente o oposto a respeito dela. Ainda que amada e respeitada por muita gente, ela não se sentia nada especial. Talvez isso se deva ao fato dela nunca ter se sentido assim. Quando criança, era sempre uma das últimas a ser escolhida para os times de vôlei ou de futebol - e quando se é criança aquilo sim é ser especial! Crianças podem ser muito cruéis - como os adultos. Porém sem filtros.

Com todos os fatos e lembranças que expus é de se imaginar que a nossa relação extrapolasse os limites da amizade. Sim, tal dedução é perfeitamente cabível, mas inverossímil. Nunca aconteceu. Quem sabe por minha culpa, que nunca soube aproveitar as chances que ela dava, ou por culpa dela, que nunca aproveitava as chances que eu dava. Bem verdade é que eu nunca entendi muito bem o porquê de nunca acontecer. Mas desconfio. Afinal, todos amam os anjos, mas ninguém pode tê-los.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Plural singular

Dia desses no ônibus me apareceram aquelas duas figuras. Capturaram minha atenção de forma singular, com seus gestos frágeis de quem já viveu bastante e passou por muita coisa. Era um casal estremamente cativante.

Mesmo que já não conseguissem esconder as marcas do tempo, bastante presente em seus rostos que já não possuíam mais as características joviais de outrora, ela ainda mantinha-se vaidosa, tentando em seu ato simples, esconder a brancura de seus fios, disfarçando-os de vermelho. A cor do amor. E era isso que mais chamava atenção naqueles dois: o amor. Mesmo depois de décadas juntos, ainda mantinham relações de afeto visíveis, notadas pela maneira de falar um com outro e das pequenas sutilezas trocadas. Ela ainda era dele, como fora em seu primeiro encontro; e ele ainda era dela, como o fora em seu primeiro beijo.

E eles ainda mantinham-se juntos...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Desafogar-se

"- Talvez você devesse, sei lá, ser mais prático. É, é isso mesmo! Sabe, procurar algum significado real para sua vida, algum objetivo de verdade, não isso que você fala de felicidade plena e as outras coisas parecidas que eu não consigo lembrar agora. Eu sei que você tem um coração lindo e que sempre tenta ser legal com todo mundo, mas as coisas não podem ser assim. Não pode ser assim porque ninguém mais é! Isso de poesia e amor é legal, é bonito, é o tipo de coisa que você fala pras meninas para conseguir um beijo, mas pra vida não serve! Você tem que ganhar dinheiro, pagar as contas, comprar comida... seus livros e seus heróis mortos não podem fazer isso por nós. Por você! Você podia ter mais ganância, mais vontade. Meu Deus, todo mundo quer ficar rico, mas você só quer ficar ouvindo seus discos antigos e lendo essas velharias empoeiradas. Acho que tu nunca pensaste que, se fosses rico, poderia ter todos os discos e livros antigos já produzidos. Eu não ligo a mínima se você não acreditar em mim, mas eu ainda te amo. E acho que vou amar pra sempre. Entretanto eu não posso continuar com você. Tu me prendes. Preciso muito abrir minhas asas e voar. Migrar pro sul. Por favor, faz o mesmo! Não quero ver você morrer congelado."

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Para um diamante qualquer

"- Meu bem, calma aí . . . Por favor permaneça uma criança em algum lugar no seu coração!
- Você não me ama mais? [barulho de carros e gritos ao fundo]
- Não se trata disso...
- Trata-se do que então?!



Eu tenho uma toalha com o número 42 que levo pra todo lugar.
Eu sou jovem e ainda me iludo com minhas esperanças.
Eu tenho a droga da luz elétrica.
Eu sou um ser racional [somos?] e faço parte da porcaria do progresso. Isso não é o bastante pra você?

Eu tenho uma capacidade incrível de conhecer os segredos das pessoas.
E eu tenho um senso maravilhoso de observação(que, por sinal, você nunca percebeu).
É por isso que não perco minhas fichas tentando ligar pra você, pois sei que não está em casa.

Eu tenho todos os doces que você sempre desejou.
E eu tenho as fileiras prontas para você.
Eu tenho os seus diamantes!
E eu conheço a fada que te faz bem...

Mas ainda não te ligarei, pois ainda não haverá ninguém em casa (Hello?! Is there anybody in there?Is there anyone in home?).

Eu tenho os meios para qualquer fim.
E parece que ele está cada vez mais próximo...


Em algumas coisas você não é tão boa.
Como em sorrir, em chorar e mentir.
Algumas pessoas se tornam muito confiantes, babe."