Magra, mãos pequenas, estatura mediana. Nem se fizesse a careta mais feia conseguiria assustar alguém. Exalava simpatia. Pele branquinha, cabelos lisos escuros. Não dava pra distinguir onde terminava a pupila e onde começava a íris: era tudo negro. Engraçado isso, pois se, como dizem, os olhos são a janela da alma, os dela deveriam ser claros como um céu de verão. Bem, talvez não se deva acreditar em tudo o que dizem.
Não é que ela fosse o tipo perfeita - era mais do tipo que você sente enorme prazer somente em dividir a mesma sala. Acho que todo mundo conhece alguém assim. Se não conhece, deveria conhecer. Já!
Um tempo atrás, enquanto caminhava de volta para casa depois do trabalho, lembrei de Lucy. Na verdade, busquei com grande esforço alguém que em alguma ocasião tenha discutido, se irritado ou até mesmo levantado a voz com ela. Sem sucesso. Isso é bem estranho, na verdade. Ainda mais se for considerado os tempos difíceis que vivemos, em que qualquer boa ação é sempre vista como um pretexto para se conseguir qualquer coisa. Tempo difícil para os sonhadores.
De fato isso me intrigou. Recordações do tempo em que passei com ela vieram à mil. Como num quebra-cabeças, eu tentava encaixar todas as partes da velha Lucy que agora me parecia um grande mistério, jogando por terra a garota amável que sustentava na memória.
Vez ou outra eu lembrava de Lucy. Curioso isso, por que agora percebo que sempre foram em ocasiões de grande stress, de problemas e dessa baboseira toda que nossas regrinhas estúpidas nos obrigam a conviver. E Lucy sempre me ajudava. Talvez porque estar com ela tenha sido a melhor coisa que já experimentei na vida. Era uma sensação estranha. Era como fazer parte de algum mundo em que as coisas fossem perfeitamente cabíveis, em que se podia colocar o pé sujo no sofá branco e andar com roupas que não estão na moda sem ser repreendido por ninguém. Era como pegar todas suas planilhas, papéis do seguro, contas e jogar tudo pro ar, e em meio à chuva de papéis sentir-se muito melhor, como um astronauta ou uma estrela do rock. Lucy era pura utopia.
Contudo, era esquisito que ela sentisse exatamente o oposto a respeito dela. Ainda que amada e respeitada por muita gente, ela não se sentia nada especial. Talvez isso se deva ao fato dela nunca ter se sentido assim. Quando criança, era sempre uma das últimas a ser escolhida para os times de vôlei ou de futebol - e quando se é criança aquilo sim é ser especial! Crianças podem ser muito cruéis - como os adultos. Porém sem filtros.
Com todos os fatos e lembranças que expus é de se imaginar que a nossa relação extrapolasse os limites da amizade. Sim, tal dedução é perfeitamente cabível, mas inverossímil. Nunca aconteceu. Quem sabe por minha culpa, que nunca soube aproveitar as chances que ela dava, ou por culpa dela, que nunca aproveitava as chances que eu dava. Bem verdade é que eu nunca entendi muito bem o porquê de nunca acontecer. Mas desconfio. Afinal, todos amam os anjos, mas ninguém pode tê-los.
sábado, 21 de agosto de 2010
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Plural singular
Dia desses no ônibus me apareceram aquelas duas figuras. Capturaram minha atenção de forma singular, com seus gestos frágeis de quem já viveu bastante e passou por muita coisa. Era um casal estremamente cativante.
Mesmo que já não conseguissem esconder as marcas do tempo, bastante presente em seus rostos que já não possuíam mais as características joviais de outrora, ela ainda mantinha-se vaidosa, tentando em seu ato simples, esconder a brancura de seus fios, disfarçando-os de vermelho. A cor do amor. E era isso que mais chamava atenção naqueles dois: o amor. Mesmo depois de décadas juntos, ainda mantinham relações de afeto visíveis, notadas pela maneira de falar um com outro e das pequenas sutilezas trocadas. Ela ainda era dele, como fora em seu primeiro encontro; e ele ainda era dela, como o fora em seu primeiro beijo.
E eles ainda mantinham-se juntos...
Mesmo que já não conseguissem esconder as marcas do tempo, bastante presente em seus rostos que já não possuíam mais as características joviais de outrora, ela ainda mantinha-se vaidosa, tentando em seu ato simples, esconder a brancura de seus fios, disfarçando-os de vermelho. A cor do amor. E era isso que mais chamava atenção naqueles dois: o amor. Mesmo depois de décadas juntos, ainda mantinham relações de afeto visíveis, notadas pela maneira de falar um com outro e das pequenas sutilezas trocadas. Ela ainda era dele, como fora em seu primeiro encontro; e ele ainda era dela, como o fora em seu primeiro beijo.
E eles ainda mantinham-se juntos...
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Desafogar-se
"- Talvez você devesse, sei lá, ser mais prático. É, é isso mesmo! Sabe, procurar algum significado real para sua vida, algum objetivo de verdade, não isso que você fala de felicidade plena e as outras coisas parecidas que eu não consigo lembrar agora. Eu sei que você tem um coração lindo e que sempre tenta ser legal com todo mundo, mas as coisas não podem ser assim. Não pode ser assim porque ninguém mais é! Isso de poesia e amor é legal, é bonito, é o tipo de coisa que você fala pras meninas para conseguir um beijo, mas pra vida não serve! Você tem que ganhar dinheiro, pagar as contas, comprar comida... seus livros e seus heróis mortos não podem fazer isso por nós. Por você! Você podia ter mais ganância, mais vontade. Meu Deus, todo mundo quer ficar rico, mas você só quer ficar ouvindo seus discos antigos e lendo essas velharias empoeiradas. Acho que tu nunca pensaste que, se fosses rico, poderia ter todos os discos e livros antigos já produzidos. Eu não ligo a mínima se você não acreditar em mim, mas eu ainda te amo. E acho que vou amar pra sempre. Entretanto eu não posso continuar com você. Tu me prendes. Preciso muito abrir minhas asas e voar. Migrar pro sul. Por favor, faz o mesmo! Não quero ver você morrer congelado."
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Para um diamante qualquer
"- Meu bem, calma aí . . . Por favor permaneça uma criança em algum lugar no seu coração!
- Você não me ama mais? [barulho de carros e gritos ao fundo]
- Não se trata disso...
- Trata-se do que então?!
Eu tenho uma toalha com o número 42 que levo pra todo lugar.
Eu sou jovem e ainda me iludo com minhas esperanças.
Eu tenho a droga da luz elétrica.
Eu sou um ser racional [somos?] e faço parte da porcaria do progresso. Isso não é o bastante pra você?
Eu tenho uma capacidade incrível de conhecer os segredos das pessoas.
E eu tenho um senso maravilhoso de observação(que, por sinal, você nunca percebeu).
É por isso que não perco minhas fichas tentando ligar pra você, pois sei que não está em casa.
Eu tenho todos os doces que você sempre desejou.
E eu tenho as fileiras prontas para você.
Eu tenho os seus diamantes!
E eu conheço a fada que te faz bem...
Mas ainda não te ligarei, pois ainda não haverá ninguém em casa (Hello?! Is there anybody in there?Is there anyone in home?).
Eu tenho os meios para qualquer fim.
E parece que ele está cada vez mais próximo...
Em algumas coisas você não é tão boa.
Como em sorrir, em chorar e mentir.
Algumas pessoas se tornam muito confiantes, babe."
- Você não me ama mais? [barulho de carros e gritos ao fundo]
- Não se trata disso...
- Trata-se do que então?!
Eu tenho uma toalha com o número 42 que levo pra todo lugar.
Eu sou jovem e ainda me iludo com minhas esperanças.
Eu tenho a droga da luz elétrica.
Eu sou um ser racional [somos?] e faço parte da porcaria do progresso. Isso não é o bastante pra você?
Eu tenho uma capacidade incrível de conhecer os segredos das pessoas.
E eu tenho um senso maravilhoso de observação(que, por sinal, você nunca percebeu).
É por isso que não perco minhas fichas tentando ligar pra você, pois sei que não está em casa.
Eu tenho todos os doces que você sempre desejou.
E eu tenho as fileiras prontas para você.
Eu tenho os seus diamantes!
E eu conheço a fada que te faz bem...
Mas ainda não te ligarei, pois ainda não haverá ninguém em casa (Hello?! Is there anybody in there?Is there anyone in home?).
Eu tenho os meios para qualquer fim.
E parece que ele está cada vez mais próximo...
Em algumas coisas você não é tão boa.
Como em sorrir, em chorar e mentir.
Algumas pessoas se tornam muito confiantes, babe."
sábado, 17 de julho de 2010
Sê
Naquela noite, eles poderiam ter conversado sobre qualquer coisa. Poderiam ter falado sobre a origem da vida, o universo e de tudo mais. Poderiam ter tido aquela conversa de gente que não se conhece muito bem, falando sobre futebol, tevê, colocando a culpa no governo de qualquer coisa que ele talvez nem fosse culpado, sobre como está quente e se questionando quando vai chover. Poderiam ter discutido essas coisas que a gente discute com o chefe, o professor, a mãe ou qualquer outro tipo de autoridade. Poderiam ter falado de planos, filhos, carreira, religião, futebol, política e esses outros assunto que a gente não discute por que sempre acaba em confusão. Em noites assim, a gente fala de coisa que nem se deve falar.
Quem estivesse na Rua Harmônica e entrasse no bar que existe próximo ao fim da rua (que não tem saída) logo veria um casal discutindo sobre, basicamente, qualquer coisa. Ou todas as coisas. Poderia, ainda, pedir uma cerveja gelada enquanto aguarda o prato do dia, o qual é sempre melhor que o do dia anterior, e contemplar a discussão.
Ela parecia ser bem maior enquanto falava. Bem assim como uma gata que se arma para parecer maior antes da investida. A cabeleira loira tornara-se prata sob o luar e os olhos negros indicavam a que ponto(s) olhar na face branca. Ele parecia não se assustar com a intimidação dela e sustentava durante todo o tempo um sorriso de canto de boca.
Quando chegava a vez dele de falar, ela impunha ao ambiente uma serenidade que poucas vezes apareceu por aquelas bandas. Ele continuava com seu sorriso sem alterar a sua postura no embate.
Ficaram a noite inteira conversando no bar. Por fim, ele deu-se conta que concordaria com qualquer coisa que ela dissesse. E ela percebeu que havia muito tempo desde que alguém a ouviu com tamanha atenção.
Ela cheirava a chocolate.
Quem estivesse na Rua Harmônica e entrasse no bar que existe próximo ao fim da rua (que não tem saída) logo veria um casal discutindo sobre, basicamente, qualquer coisa. Ou todas as coisas. Poderia, ainda, pedir uma cerveja gelada enquanto aguarda o prato do dia, o qual é sempre melhor que o do dia anterior, e contemplar a discussão.
Ela parecia ser bem maior enquanto falava. Bem assim como uma gata que se arma para parecer maior antes da investida. A cabeleira loira tornara-se prata sob o luar e os olhos negros indicavam a que ponto(s) olhar na face branca. Ele parecia não se assustar com a intimidação dela e sustentava durante todo o tempo um sorriso de canto de boca.
Quando chegava a vez dele de falar, ela impunha ao ambiente uma serenidade que poucas vezes apareceu por aquelas bandas. Ele continuava com seu sorriso sem alterar a sua postura no embate.
Ficaram a noite inteira conversando no bar. Por fim, ele deu-se conta que concordaria com qualquer coisa que ela dissesse. E ela percebeu que havia muito tempo desde que alguém a ouviu com tamanha atenção.
Ela cheirava a chocolate.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Preto e Branco
"Era uma vez, Deus. Sentindo-se muito solitário, Deus criou um planeta. Depois disso, para lhe fazer companhia, resolveu criar seres para viverem no planeta. Deus estava tão empolgado com sua brilhante idéia que resolveu desenhar, o mais rápido possível, todos os seres que viveriam no planeta. Pegou sua caixa de lápis-de-cor e alguns papéis e pôs-se a desenhar. Gastou horas e horas com isso, imaginando, desenhando, apagando e redesenhando tudo o que gostaria que tivesse no planeta. Com o lápis azul desenhou um grande oceano, vários lagos e rios. Com o lápis verde, coloriu várias florestas pelo planeta. Com o lápis amarelo e com o preto, desenhou as onças, pumas e jaguares. Com o cinza, elefantes, rinocerontes e hipopótamos. Com várias cores desenhou pássaros e peixes. E assim, nesse processo, foi preenchendo a Terra com tudo o que havia imaginado. Contudo, quando chegou a vez de desenhar as pessoas, Deus começou a ficar sem lápis coloridos. Dessa forma, não pôde dar aos seres humanos a mesma diversidade de cores que fora dada aos animais. Mesmo com essa dificuldade, conseguiu se virar muito bem e desenhou milhares de pessoas para o planeta. Entretanto, quando Deus foi desenhar Lucy, só lhe restara o lápis preto. Como tinha pressa, e agora poucos recursos, Deus decidiu empenhar-se ao máximo nesse projeto. Gastou muito, muito tempo desenhando apenas com lápis preto uma garotinha. Deu bastante atenção aos olhos. Desenhou e apagou dezenas de vezes aos mãos, pois queria algo de aspecto frágil, mas que pudesse ter a força de 10 homens de vez em quando. Ficou muito tempo rabiscando os cabelos, fio por fio. Lucy deu muito trabalho e quando ficou pronta Deus teve que criar uma categoria para encaixá-la, e daí nasceu a idéia que temos de perfeição. Ela não tinha sido apenas mais uma das obra do cara que criou tudo, mas tinha sido 'A' criação, 'O' desenho, mais ou menos como 'E'le. Hoje Lucy anda por aí, gabando-se inconscientemente de ter sido produto de apenas um lápis preto no papel branco, sentindo orgulho de ser um dos melhores, e preferidos, desenhos de Deus!"
domingo, 27 de junho de 2010
Carta à Senhorita Mãos Geladas
Ontem sai com o pessoal da faculdade. Nós fomos num lugar legal no centro da cidade. Fazia tempo que a gente não saia junto e, pra ser sincero, já começava a sentir falta. Eu me sinto muito bem com eles, com as diferentes personalidades de cada um. São pessoas realmente muito legais. Você gostaria deles se os conhecesse. Eu me diverti bastante. Senti sua falta em todos os momentos.
Na entrada, enquanto eu remexia minha carteira, lembrei de como você pegava logo as notas mais fáceis para o troco diante da minha sempre falta de jeito com as cédulas. Quando fomos procurar algum lugar pra sentar, lembrei da sua mania de limpeza e de como detestava bancos sujos, e que sempre tirava da bolsa algum lenço ou coisa do tipo e tentava amenizar o problema. Na hora de pedir algo pra comer, visualizei você ali, perguntando ao garçom se o prato que queria pedir tinha carne de porco ou algum tipo de bebida alcoólica, já que não podia comer nada daquilo por causa da sua religião.
Apreciava a idéia de que, de alguma forma, a saudade fosse amenizada com o tempo, mas ao que parece, ele é só combustível. Tudo aquilo com que eu implicava me faz falta.
Embora nada do que eu disser possa trazê-la de volta, eu precisava contar que ainda sinto falta das suas pequenas mão geladas.
Na entrada, enquanto eu remexia minha carteira, lembrei de como você pegava logo as notas mais fáceis para o troco diante da minha sempre falta de jeito com as cédulas. Quando fomos procurar algum lugar pra sentar, lembrei da sua mania de limpeza e de como detestava bancos sujos, e que sempre tirava da bolsa algum lenço ou coisa do tipo e tentava amenizar o problema. Na hora de pedir algo pra comer, visualizei você ali, perguntando ao garçom se o prato que queria pedir tinha carne de porco ou algum tipo de bebida alcoólica, já que não podia comer nada daquilo por causa da sua religião.
Apreciava a idéia de que, de alguma forma, a saudade fosse amenizada com o tempo, mas ao que parece, ele é só combustível. Tudo aquilo com que eu implicava me faz falta.
Embora nada do que eu disser possa trazê-la de volta, eu precisava contar que ainda sinto falta das suas pequenas mão geladas.
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