quinta-feira, 2 de maio de 2013

Comida pros fortes

- Essa é a comida dos fortes, senhor.
- Como assim, garoto?
- Só os fortes podem comer dessa comida aí, senhor. Essa é a ordem que eu tenho.
- Quem te deu essa ordem?
- Ah, pessoal daquela salinha azul lá no fundo. Ali, naquele cant...
- Desde quando você faz isso, garoto?
- Tem uns meses já, senhor. Uns três ou quatro, não me lembro bem. É que a gente por aqui não costuma muito contar o tempo. Não tem muita pressa por esses lados aqui não, senhor. Sabe como é, não acontece nada de novo, é tudo meio igual... e tudo assim, sempre paradão e quente. Quente... E esse calor só piora, senhor. Eu penso que hoje é o dia mais quente desde quando eu cheguei há seis meses atrás.
- Três, garoto!
- O quê, senhor?
- Três meses! Você me disse que trabalhava aqui já fazem três ou quatro meses.
- Ah sim, senhor! Mas eu cheguei aqui antes. Só depois que arrumei esse trabalho aqui.
O senhor olhou o garoto bem fundo nos olhos para depois observar o cenário em que tinham aquela conversa. O ambiente árido não era nada receptivo, mas as plantas mortas por falta d'água e as carcaças esparsas dos animais que tiveram a sorte de sair do lugar colaboravam com a sensação de poucos amigos da região.
- Mas como você sabe, garoto? Como você sabe quem são os fortes?
- São os que chegam, senhor. Normalmente são os que chegam aqui pedindo pela comida. Acho que o pessoal já os avisa que tem comida aqui esperando por eles. Eu só dou o prato pra cada. Meu trabalho é bem fácil. A parte mais difícil é esperar nesse calor. Ainda bem que tem essa casinha por aqui. Quando eu cheguei ela não tinha telhado, aí eu procurei uns pedaços de palha e cobri. Não é muito boa, mas dá pro gasto!
- E como você sabe que eu não sou um deles, um dos fortes?
- Ah, porque... Não sei, o senhor é diferente!
- Como? Eu também não cheguei aqui? Não são apenas os fortes que chegam aqui?
- Sim, tá certo, mas...
- Na verdade, como tu sabes se tu não és um vencedor?
- Hahahaha! EU, senhor? Eu só tô aqui pra dar comida pra eles! Eu não sou um dos fortes, não senhor.
- Por quê?
- Ora, mas que pergunta, senhor! Claro que não! Olha pra mim! Como eu posso ser um forte? Eu sou fraquinho, só como essa comida sem gosto que tem aqui...
- A mesma dos fortes!
- Tá, mas eu não sou um deles! Como pode?! Se eu fosse, claro que eu saberia!
- E o que tu farias?
- Ah, não sei...
- O que os fortes fazem quando saem daqui?
- Não sei, senhor... Eu nem sei o que eles fazem antes de chegar aqui! Na verdade, eu nem sei pra quê eles precisam de mim aqui. Tá tudo aí pra eles, o pessoal vem deixar e pegar a comida. Não chega ninguém mais aqui pra comer, a não ser o senhor. De onde o senhor veio?
- Chega de papo, garoto. Eu vou levar dois desses pratos pra viagem. Se quiser podemos papear mais no caminho. Tu vens ou não?

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Cinco horas


Cinco da tarde é o horário mais confuso do dia. É nesse momento que o Sol vai se acalmando no horizonte - mais ameno, mais calmo, batendo de uma maneira distinta nas fachadas das casas, deixando sua despedida e a escuridão vem chegando de mansinho pra tomar sua posição. Tudo isso pintando a vida em tons laranja, em tons de cenário...
Nessa hora as luzes dos postes ainda não estão acesas e os carros se veem na indecisão de acender ou não seus faróis. Por breves instantes o dia mergulha na escuridão.
Era assim que Maria deixava o trabalho. Finalmente.
Às cinco da tarde ela estava livre para ir sem ser punida ou advertida por isso. Às cinco da tarde ninguém mandava mais e suas obrigações haviam chegado ao fim naquele lugar. Às cinco, de cada cinco dos dias da semana, Maria era liberta. Era livre do fardo habitual que a ela parecia não ter fim. É somente o sentimento das cinco da tarde que injeta ânimo em seu cotidiano. Contudo, às cinco e com sua carta de alforria embaixo do braço, Maria ainda se perguntava ‘e agora, o que fazer’?

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Sem Teto.


- O que você achou?
- Não sei... Você notou que não tem teto?
- O quê?
- Não tem teto!
- Ah sim, legal isso, né?! Dá um clima... Singular!
- Virou hipster agora?
- Para de falar besteira! Diz logo, o que achou?
- Hahaha, cara, não tem teto!
- Ah, mas em compensação tem água de graça!
- Como assim?
- Não sei bem explicar, mas eu sei que tem!
- Até as empresas ficarem sabendo, né?
- É... Mas eu acho que tem alguma coisa com ser uma igreja abandonada, terreno da igreja, sei lá! Essas coisas... Será que isso é pecado? Acho que não. Talvez não... Acho que não!
- Eu acho que deve ser! Bem, mesmo assim, acho que essa ideia é um pouco fora do lugar. Como que você quer fazer uma "casa de eventos" aqui?
- Não faz aspas com as mãos quando falar da minha casa de eventos!
- Que coisa, cara! Vem,volta pro carro. Mas antes me diz, como tu achaste isso aqui?
- Eu estava andando de bicicleta e resolvei conhecer novos lugares. Acabei parando aqui.
- E esse ideia, de onde saiu?
- Estava pensando em fazer uma coisa diferente... Mas agora que você tá falando assim, desanimei. Penso que deva fazer algo de concreto, que dure por mais tempo. Talvez em uns 500 anos alguém descubra e goste, e serei considerado um vanguardista, visionário!
- Vamos, entra no carro. Tu estás bêbado!

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Homem Comum


O mundo parecia desabar na noite lá fora. A chuva e o vento forte, os raios e todo arsenal atmosférico disponível não davam trégua, e batiam nas janelas insistentemente. Dentro do apartamento, Lynyrd Skynyrd ecoava baixinho.

Já passa do segundo mês do ano e ele ainda não tivera coragem nem de tirar a barba. Alguns dias se passaram desde seu último banho e, naquele momento, o seu apartamento de 200m², com 2 suítes, living e varanda gourmet se resumia à uma cama e uma garrafa d'água no canto do quarto principal. Chovia, mas o calor era persistente. Era noite, mas a cidade lá fora estava completamente iluminada.

Desde Angélica, Pedro não foi mais o mesmo. Nada de shows, nada de festas, nada de cerveja no bar. Era só o trabalho e a casa.

O que sentia não era somente o que sente aqueles que perdem alguém querido. Tudo o que havia construído, pensado e planejado tinha sido destruído com apenas um telefonema ruidoso no meio da noite: - Ela morreu!

Sentia-se melhor apenas por terem parado de lhe falar que "o tempo se encarregaria de curar sua mágoa". Em dois anos nada havia realmente sido amenizado.

Apesar da consciência da fragilidade, brevidade da vida humana e tudo mais, ninguém está realmente preparado quando ela bate à porta. Na verdade, ninguém se prepara para o ritual - até porque não se diz como se comportar ao entrar numa sala fria de necrotério e o que fazer ao ver o corpo desfalecido de alguém que lhe foi tão próximo.

Mas não aquela noite. Após muito tempo ouvindo que deveria sair de casa às vezes, finalmente aquele conselho parecia ser bom em ser seguido. Penteou os cabelos castanhos e vestiu a primeira camiseta e calça limpas que conseguiu encontrar. Pedro sentiu mesmo um desejo de sair para respirar. E assim o fez, mesmo com a chuva ainda forte.

- Essa cidade não pode ser feita de açúcar, pensou enquanto girava a chave na fechadura da porta.

À medida que dirigia em direção ao centro da cidade a chuva afinava. Ainda pegou o telefone para ligar para os antigos amigos, mas achou melhor não. Sabia que os eles acabariam se comportando como babás e não era isso que procurava. Queria apenas ver rostos diferentes, embriagar-se um pouco e tentar voltar a ser um cara normal.

Contudo, as coisas haviam mudado. Começando pelo local. Antes parecia não parecia tão cheio e as pessoas eram mais velhas. Os adolescentes haviam dominado o lugar. Procurou ainda os bares que costumava frequentar, mas não os encontrou.

- Bem, melhor assim. Menos rostos familiares.

Perambulando mais um pouco, encontrou um lugar que pareceu ser legal. Ao lado da entrada, uma placa dizia “cerveja bonita & gente barata”.

– Pelo menos eles são sinceros!

Do lado de dentro, o que havia do lado de fora: muita gente! Parecia que todos na cidade tiveram a mesma ideia de sair de casa aquela noite. Pedro encostou-se no bar e pediu uma cerveja. Enquanto aguardava desafiou-se a adivinhar qual a música que a bandinha que se apresentava estava tocando. Não conseguiu. – Deve ser uma dessa tal britpop. Antigamente, costumava ter discussões calorosas com os amigos sobre essas coisas. Curiosamente, lembrou-se da vez que o Cidão disse que era “por isso que as coisas estão como estão: ninguém gosta mais de Hendrix!”. A lembrança lhe despertou um pequeno sorriso de canto de boca, que foi interrompido pelo garçom com a garrafa de cerveja na mão.

Pedro andou pelo lugar como se estivesse procurando algo, mas que estava na cara que não encontrava.

- Teria sido melhor ligar pros caras. Pelo menos eu teria companhia, era o que resmungava enquanto entrava no banheiro.

Só mais uma cerveja e iria pra casa. Tava decidido. Mais uma vez chegou no bar e ficou esperando a cerveja. Dessa vez não tentou adivinhar musica nenhuma, mas olhava a esmo para as pessoas do lugar. A maioria devia ter menos de 23 e já era o fim da festa de muita gente que bebeu além da conta. Lá ao fundo, uma garota olhava fixamente para Pedro. Aquilo o deixou sem-graça, um tanto desajeitado. Ficaram nessa de se encarar por uns minutos e foram interrompidos devido à cerveja dele que havia chegado finalmente. Pedro virou-se para pegar e quando se virou novamente para a garota ela havia sumido. Deu de ombros e pôs-se a terminar aquela cervejinha.

- Você é gay?

Pedro não percebeu achegada da garota ao seu lado. Devido ao barulho, não entendeu o que ela perguntou. Mas se tivesse entendido, a resposta seria a mesma:

- O que você disse?

- Você é gay?

- Não, não sou, respondeu ele, agora reparando bem naquela garota de olhos e cabelos bem escuros e de pele branquinha. Por uns segundos tentou adivinhar a idade da garota, mas bem rapidamente decidiu que já bastava de adivinhações por aquela noite. Aproximou-se do ouvido dela e perguntou por que ela havia pensado isso, sem deixar de notar o forte perfume que ela usava.

- Ah, sei lá. Você está aí sozinho e aA gente ficou se olhando por um bom tempo e você não fez nada. O pessoal que vem aqui geralmente não age assim.

Pedro pediu outra cerveja pra ele, e para a ela. Ficaram conversando e bebendo por um tempo até que ela quis dançar.

- Tudo bem, mas já peço desculpas pelos seus pés!

Até que se saiu bem. Seu pensamento foi nos amigos que deixara de chamar e qual seria a reação deles se o vissem ali, dançando com aquela garota bonita. Estendeu-se ainda um pouco mais nas coisas que havia deixado de fazer nesses últimos tempos e que retomaria a partir do dia seguinte. Mas antes disso, a única coisa real eram as mãos dele no quadril dela e os lábios dela no pescoço dele. Em meio ao seu devaneio, sentia pequenas mordidas em seu pescoço.

Fosse pela euforia de viver novamente, fosse pela dança, fosse pela garota, fosse pelas cervejas, o fato é que ele não percebeu quando ela cravou os caninos em seu pescoço e foi sugando-lhe toda a vida pelas veias. Demorou certo tempo para perceberem que o cara caído no chão não estava legal.

- Malditos drogados! - Xingava o dono do lugar.

- Malditos drogados! – Resmungava o policial que chegou para ver o que tinha acontecido.

- Deve ter sido uma overdose. 

E foi com essa possível causa que ele chegou ao IML para a autópsia. Pedro ficou espantado quando acordou naquele lugar. Espantado mesmo ficou o legista quando chegou à sala e viu o seu próximo trabalho saindo pela porta dos fundos. Pedro já conhecia a saída.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Depois do carnaval


Maria Eduarda era doida por informação. Lia de tudo. Quando criança era a alegria dos pais, que a mostravam a todos e diziam que ela era uma criança muito inteligente, que lia de tudo, que quando crescesse seria uma doutora!
Maria Eduarda cresceu e não virou doutora. Continuava inteligente e cada vez mais doida por informação. Mas agora começava a dar uma pontinha de preocupação para os pais, que diziam que já era hora dela se acertar na vida, começar a ganhar seu dinheirinho e ajudar em casa. 
Por muito tempo ela se achou superior aos outros coleguinhas de classe. E quando cresceu e foi para a primeira faculdade, também. Mas agora, que já largou Medicina, Direito e Engenharia Mecatrônica, Maria Eduarda se sentia um trapo. Ser inteligente não era uma bênção, era uma maldição. 
Ela caiu numa profunda crise existencial e passava o dia na internet procurando diversos artigos de diversos assuntos apenas marcando-os, favoritando e separando em pastas para ler depois. Já não lia mais um artigo completo, no máximo passava os olhos. Ia já para o próximo, para marcá-lo e separá-lo na sua pasta apropriada para que depois, quando ela estivesse mais calma e com tempo, pudesse ler sem preocupação.
90% dos favoritos nunca foram lidos. 
No fim do ano, já cansada da pressão dos pais, mas mais ainda cansada da situação em que ela constatou que se encontrava, fez uma promessa: - Depois do carnaval, eu dou um jeito na minha vida!
A mãe dela ficou muito feliz. Fez questão de levá-la à praia na virada de ano para pular as ondinhas e tudo mais. Na cabeça dela, a promessa havia sido sacramentada, passada em cartório, e finalmente sua filha e tomar um rumo na vida.
Maria Eduarda prometeu ainda que antes do carnaval faria tudo que ela ainda não tinha feito na vida: descansar. Sem livros ou internet, só o básico, sabe? Planejou meticulosamente o que faria depois do carnaval, que curso iria fazer, qual faculdade frequentar, esse tipo de coisas. Tava tudo lindo. Dona Marta, mãe dela, todo dia dizia pro marido: "agora é pra valer, Zé!".
No carnaval, ela foi pra Olinda. Se acabou de dançar frevo, fez muitos amigos e fez ainda outra promessa, de voltar no próximo ano.
O carnaval chegara ao fim. Passou. O ano iria finalmente começar. 
Chegou em casa eufórica, realmente empenhada em cumprir suas metas. Ligou o computador e foi se atualizar do mundo!
O tempo passou e ela realmente conseguiu fazer o que queria depois daquele carnaval. 
Anos depois, consegui firmar-se como uma grande escritora. Casou e teve dois filhos. O mais velho já saiu de casa. O mais novo sempre foi orgulho da família. Menino inteligente, lia de tudo! 
Maria Eduarda discutia todos os dias com o filho sobre o futuro dele e perdia a cabeça quando ouvia diariamente a mesma resposta: depois do carnaval a gente vê isso.

Maria Eduarda nunca voltou à Olinda.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Teoria do Guarda-Chuva

Jeremias sempre nos brindava com suas teorias sobre tudo em nossos encontros. Costumava dizer que, apesar dos vinte e poucos anos, tinha a experiência que seu nome demandava. Não importava o lugar que estivesse, qualquer coisinha podia dar o start naquela máquina incansável de teorias, suposições e observações.
Dia desses, lá pela quarta ou quinta rodada no bar, ele me veio com a Teoria do Guarda-Chuva.
- Guarda-chuva?
- É cara! Ninguém dá ouvidos aos guarda-chuvas, mas eles têm muito a dizer! As pessoas vão mudando, e de acordo com isso, também os seus guarda-chuvas. Nunca reparou? Claro que não, você nem sabe o que comeu no almoço de hoje! É assim, quando criança é aquela festa! Guarda-chuvas de todas as cores e caras, com desenhos coloridos e estampas de super-heróis. Lembra quando a gente foi buscar aquela filha da sua prima no escola de crianças? Estava chovendo, e eu via a cara do Ben 10 em todo canto!
Quando a gente está na praia, levamos aqueles guarda-chuvas (sóis!) grandes, coloridos e espalhafatosos. Tem também os guarda-chuvas das tias - estampados, mas que mantém a discrição que senhoras de respeito requerem. Eu só não entendo o porquê deles serem tão feios! 
Mas quando quando a gente é adulto, e não é senhora de respeito e nem está na praia, o que a gente usa?
- Bem, a gente usa o preto! 
- Exato! Todo mundo tem um guarda-chuva preto e esse é, geralmente, o que é levado pra todo lugar. Não importa o fabricante ou o modelo, o guarda-chuva é preto! É nosso default. É só um guarda-chuva, me dá qualquer um! Até mesmo aquelas pessoas que lançam aos quatro ventos que são diferentes, únicas e aquela quel toda que a gente já conhece, até mesmo elas usam a monotonia do guarda-chuva preto! 
- É verdade... Lembra daquela sua namoradinha que tinha o cabelo cor-de-arco-íris? Dependendo da intensidade da luz o cabelo tinha uma coloração diferente...
- Claro, e até ela tinha um guarda-chuva preto. E quebrado, por sinal! O fato é que somos tão pressionados a consumir os produtos de massa, a agirmos num padrão que nem percebemos quando adotamos isso para novo modo de vida. Mesmo quando tentamos nos enganar com aqueles discursos de que “nós somos diferentes”, e que usa roupas e adota comportamentos singulares, mesmo assim não percebemos o quanto da ideologia da uniformização está intrínseca ao nosso cotidiano. Isso é provado pelo seu guarda-chuva! Ele é preto, não é? 
O foda é que a gente tenta colocar em todo os objetos que temos um pouco do que somos. A gente customiza carro, a gente adesiva caderno e computador, a gente ouve bandas do underground norueguês porque o Metallica se vendeu pra indústria – até quando se escolhe o nome do cachorro a gente faz isso! Mas a gente faz isso com essas coisas grandes, que as pessoas vão notar. Não nas coisas pequenas. Mas aí, Chico, aí que são essas coisas pequenas que realmente nos diferenciam! São as coisas pequenas e que ninguém mais vê que tornam as pessoas interessantes ou chatas. Lembra por que você terminou com a Ester?
- Mania de limpeza.
- E com a Joana?
- Ela me ligava a cada 10 minutos!
- Pois é, meu jovem! À primeira vista, elas eram um ótimo partido, além de serem muito gatas. São essas coisas importantes, e minúsculas, que fazem a diferença! E quando alguém mais vê essas pequenas coisas que você tem, é aí que acontece o amor. Não só o amor de casar e viver feliz pra sempre, e blá,blá,blá, mas ainda o amor fraterno, a amizade. São as pequenas coisas que juntam as pessoas. Não seu guarda-chuva preto!”

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Low battery


Tem um montão de coisas espalhadas pela casa que precisam ser empacotadas. Na verdade, bem mais que isso. Precisam ser limpas, separadas - por cor, tamanho, peso ou qualquer outra característica que elas tenham em comum, agrupadas, enfileiradas, etiquetadas e, por fim, empacotadas. Tem sido tudo muito corrido, e eu realmente não tenho disposição para tanto.
Foi só assim que eu aprendi a lidar com essas coisas. Disciplina e método. Desde cedo eu aprendi, e tinha sido tudo muito bem útil até agora. Usava esse método para tudo, e sempre fora efetivo. Digo essas coisas no passado porque elas requerem muito tempo e energia. Energia essa que só me vive na reserva.
Mês passado eu arrumei tudo que estava pelo chão. Em meio às caixas antigas, encontrei as lembranças das antigas férias, primeiros amores, ideias infantis -  como a de descobrir o porquê de o nosso mundo ser assim. Mês passado eu arrumei tudo, preenchi todos os espaços vazios, vasculhei minha mente e organizei meu mundo. Mês passado estava tudo certo.
Agora o meu tempo não gira e as coisas se acumulam. Preciso de mais espaço, sair do meu pequeno cubo. Mas isso vai ficar pra depois. Preciso me ligar na tomada - a energia reserva acabou.

domingo, 4 de setembro de 2011

Noites vazias

Numa dessas noites vazias de quartas-feiras eu lembrei do Zé Jorge. A gente costumava assistir juntos aos jogos na tevê numa tentativa de preencher esta noite tão indecisa. Mas isso eram em outros tempos, em que o futebol era jogado com mais talento e graça. Se o Zé Jorge ainda estivesse por aqui, as nossas tentativas teriam sido todas em vão.
Quando ele se mudou para o apartamento do lado eu era ainda uma criança, no auge dos meus dez anos, mas ele já era velho. Não velhinho, desses de cinquenta anos. Eu digo velho, velho mesmo. Depois de um tempo, comecei a achar que ele já havia nascido velho, como no conto do Fitzgerald. Mas ao contrário da ficção, Zé foi ficando mais velho a cada ano.
Nos conhecemos quando eu, jogando futebol na quadra do condomínio, acertei uma bolada na janela dele. Achando que tinha arrumado uma baita de uma confusão, me supreendi quando ele apareceu sorridente na janela me devolvendo a bola e dizendo que eu "tinha que treinar mais até para quebrar a vidraça!". Assim começou nossa amizade, baseada no futebol.
O tempo foi passando, eu crescendo e ele só envelhecendo! Nessa época. já adolescente, eu comecei a perceber umas coisas que não havia notado quando criança. Zé Jorge quase não saia de casa, e tinha uma rotina bem rígida com relação aos banhos diários, horário de dormir e de comer. Ele tinha muito medo de adoecer, e na sua idade aquilo "seria o fim". Em nossas conversas ele me ensinou um monte de coisas que moldaram meu caráter. Contudo, ele deixava escapar também os desejos de sua vida que nunca realizara, como andar de avião.
Zé sabia tudo sobre aviação, e tinha um monte de livros sobre aviões. Se bobeasse ele até sabia como construir um! Mas viajar de avião, isso ele nunca tinha feito. "Vai que é um piloto novato, que não conhece os procedimentos. No fim, eu que pago o pato!". Minhas tentativas em dizer que aquilo tudo era besteira foram todas em vão.
E como tinha medo de avião, nunca saltou de paraquedas. Assim como, quando jovem, nunca andou de bicicleta, de moto, ou de patins. Pelo mesmo motivo, nunca frequentou um parque de diversões. Zé era bem paranóico com esse assunto, e tudo que fazia era pensado e mesurado. Se ele considerasse perigoso, não fazia.
Um dia, voltando da faculdade, percebi uma grande movimentação no prédio, e de alguma maneira sabia que tinha relação com o Zé. Ele teve uma parada cardíaca enquanto assistia um jogo na tevê.
Depois desse dia, percebi como as noites de quarta eram vazias. Fiquei triste pela partida do Zé, não somente por sentir sua falta, mas pelo que ele fez (e deixou de fazer). Zé Jorge viveu com medo. Morreu velhinho, mas sem aprender a viver.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Babi

Em meio à toda aquela água do mar que o fazia afundar na areia molhada, a única coisa que Beto parecia sentir eram os pés dela sobre os dele. Nada de mar, nem de vento, barulho...nada! Beto sabia que aquele era um desses momentos que a gente leva por muito tempo, e que num belo domingo de sol preguiçoso é gostoso de se lembrar. Eu não faço a mínima ideia de como ele poderia saber aquilo, mas ele sabia. Na verdade, é curioso o fato de que qualquer um que estivesse no lugar dele teria certeza que aqueles pezinhos seriam lembrados por um longo pedaço de vida.

E enquanto ela repousava a cabeça no peito dele, a única coisa que parecia sentir eram as batidas fortes do coração de Beto. Deu-se conta que aquele cenário jamais lhe ocorrera antes, e que Beto seria um dos últimos a quem ela teria algum interesse. Por um milhão de motivos ele seria uma última opção, mas agora não lhe via nada à cabeça. Mais uma dessas coisas que a gente não consegue - e eu aposto que nunca consiga, explicar.

Quem visse de longe o jovem casal abraçado na beirinha do mar poderia facilmente confundí-los com uma só pessoa. Como naquele joguinho de criança, tetris, pareciam encaixados. Encaixados por suas diferenças. Diferenças marcantes e vibrantes, como ela gostar de Mozart e ele de Ramones. Ela de velocidade e ele nem saber dirigir.

O sol ia escondendo-se no horizonte e aquele abraço encaminhava-se ao fim. Fim? Depois daquele fim de tarde, Beto precisaria dos pés dela para caminhar.

sábado, 18 de dezembro de 2010

A madrugada é imensa

Acorda sobressaltada no meio da noite. Ouvira algum barulho na casa que a acordou. Podia ser qualquer coisa. Podia ser qualquer um! O pânico que tomou conta de seu corpo não lhe permitia nenhuma reação. Respirar era difícil, que dirá gritar por socorro ou pensar em alguma estratégia para se defender. Ficou deitada, esperando.
Os olhos na escuridão fitando a porta trancada, que a qualquer instante podia ser arrombada por aquele intruso. Veio à cabeça lembranças alegres de criança, o primeiro beijo, o primeiro dia na escola, o dia em que passou no vestibular, primeiro emprego, a briga com o melhor amigo que tivera na semana anterior. Dizem que, antes da morte, é possível ver toda sua vida perante seus olhos numa fração de segundo. Ela podia atestar que o que dizem é verdade.
Aquele tempo entre o despertar e a espera pela entrada iminente daquele invasor em seu quarto parecia interminável. Desejou, por muitas vezes, estar morta antes mesmo de ter acordado – teria lhe poupado a angústia. Tentou fechar os olhos e fechar e voltar a dormir, ou quem sabe, acordar do pior dos pesadelos. Tentativas em vão.
A noite sem lua era a mais quente da temporada. E mesmo que estivesse nevando lá fora, ela estaria suando da mesma maneira aqui dentro. Se pelo menos fosse mais religiosa, poderia ter rezado por todo o tempo de espera, mas esse não era o caso. Não gastou suas últimas horas tentando imaginar como seria o invasor, nem qual a motivação do sujeito ao invadir a casa, ou o que ele faria com ela dentro de instantes e muito menos rezando para um Deus que ela não acreditava. Não. Ela não jogaria fora a postura de uma vida só por que parecia chegar ao fim o seu tempo. Ela apenas esperou.
Os olhos já acostumavam com a penumbra e os objetos tomavam suas devidas formas e proporções na escuridão. Ela continuava esperando por alguma ação. Parecia um filme ruim. Continuou esperando por algo que não vinha. Depois de mais um tempo pensando a respeito, talvez o barulho que a fizera acordar tivesse mesmo vindo de apenas um sonho ruim. Desejou muito estar certa e concentrou-se em ouvir a casa - que emitia somente um leve gotejar na torneira da cozinha. Dormiu contando os pingos da torneira e lembrando o que o ex-melhor amigo lhe dissera semanas atrás. A madrugada é imensa.

sábado, 21 de agosto de 2010

Branco e Preto

Magra, mãos pequenas, estatura mediana. Nem se fizesse a careta mais feia conseguiria assustar alguém. Exalava simpatia. Pele branquinha, cabelos lisos escuros. Não dava pra distinguir onde terminava a pupila e onde começava a íris: era tudo negro. Engraçado isso, pois se, como dizem, os olhos são a janela da alma, os dela deveriam ser claros como um céu de verão. Bem, talvez não se deva acreditar em tudo o que dizem.

Não é que ela fosse o tipo perfeita - era mais do tipo que você sente enorme prazer somente em dividir a mesma sala. Acho que todo mundo conhece alguém assim. Se não conhece, deveria conhecer. Já!

Um tempo atrás, enquanto caminhava de volta para casa depois do trabalho, lembrei de Lucy. Na verdade, busquei com grande esforço alguém que em alguma ocasião tenha discutido, se irritado ou até mesmo levantado a voz com ela. Sem sucesso. Isso é bem estranho, na verdade. Ainda mais se for considerado os tempos difíceis que vivemos, em que qualquer boa ação é sempre vista como um pretexto para se conseguir qualquer coisa. Tempo difícil para os sonhadores.

De fato isso me intrigou. Recordações do tempo em que passei com ela vieram à mil. Como num quebra-cabeças, eu tentava encaixar todas as partes da velha Lucy que agora me parecia um grande mistério, jogando por terra a garota amável que sustentava na memória.

Vez ou outra eu lembrava de Lucy. Curioso isso, por que agora percebo que sempre foram em ocasiões de grande stress, de problemas e dessa baboseira toda que nossas regrinhas estúpidas nos obrigam a conviver. E Lucy sempre me ajudava. Talvez porque estar com ela tenha sido a melhor coisa que já experimentei na vida. Era uma sensação estranha. Era como fazer parte de algum mundo em que as coisas fossem perfeitamente cabíveis, em que se podia colocar o pé sujo no sofá branco e andar com roupas que não estão na moda sem ser repreendido por ninguém. Era como pegar todas suas planilhas, papéis do seguro, contas e jogar tudo pro ar, e em meio à chuva de papéis sentir-se muito melhor, como um astronauta ou uma estrela do rock. Lucy era pura utopia.

Contudo, era esquisito que ela sentisse exatamente o oposto a respeito dela. Ainda que amada e respeitada por muita gente, ela não se sentia nada especial. Talvez isso se deva ao fato dela nunca ter se sentido assim. Quando criança, era sempre uma das últimas a ser escolhida para os times de vôlei ou de futebol - e quando se é criança aquilo sim é ser especial! Crianças podem ser muito cruéis - como os adultos. Porém sem filtros.

Com todos os fatos e lembranças que expus é de se imaginar que a nossa relação extrapolasse os limites da amizade. Sim, tal dedução é perfeitamente cabível, mas inverossímil. Nunca aconteceu. Quem sabe por minha culpa, que nunca soube aproveitar as chances que ela dava, ou por culpa dela, que nunca aproveitava as chances que eu dava. Bem verdade é que eu nunca entendi muito bem o porquê de nunca acontecer. Mas desconfio. Afinal, todos amam os anjos, mas ninguém pode tê-los.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Plural singular

Dia desses no ônibus me apareceram aquelas duas figuras. Capturaram minha atenção de forma singular, com seus gestos frágeis de quem já viveu bastante e passou por muita coisa. Era um casal estremamente cativante.

Mesmo que já não conseguissem esconder as marcas do tempo, bastante presente em seus rostos que já não possuíam mais as características joviais de outrora, ela ainda mantinha-se vaidosa, tentando em seu ato simples, esconder a brancura de seus fios, disfarçando-os de vermelho. A cor do amor. E era isso que mais chamava atenção naqueles dois: o amor. Mesmo depois de décadas juntos, ainda mantinham relações de afeto visíveis, notadas pela maneira de falar um com outro e das pequenas sutilezas trocadas. Ela ainda era dele, como fora em seu primeiro encontro; e ele ainda era dela, como o fora em seu primeiro beijo.

E eles ainda mantinham-se juntos...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Desafogar-se

"- Talvez você devesse, sei lá, ser mais prático. É, é isso mesmo! Sabe, procurar algum significado real para sua vida, algum objetivo de verdade, não isso que você fala de felicidade plena e as outras coisas parecidas que eu não consigo lembrar agora. Eu sei que você tem um coração lindo e que sempre tenta ser legal com todo mundo, mas as coisas não podem ser assim. Não pode ser assim porque ninguém mais é! Isso de poesia e amor é legal, é bonito, é o tipo de coisa que você fala pras meninas para conseguir um beijo, mas pra vida não serve! Você tem que ganhar dinheiro, pagar as contas, comprar comida... seus livros e seus heróis mortos não podem fazer isso por nós. Por você! Você podia ter mais ganância, mais vontade. Meu Deus, todo mundo quer ficar rico, mas você só quer ficar ouvindo seus discos antigos e lendo essas velharias empoeiradas. Acho que tu nunca pensaste que, se fosses rico, poderia ter todos os discos e livros antigos já produzidos. Eu não ligo a mínima se você não acreditar em mim, mas eu ainda te amo. E acho que vou amar pra sempre. Entretanto eu não posso continuar com você. Tu me prendes. Preciso muito abrir minhas asas e voar. Migrar pro sul. Por favor, faz o mesmo! Não quero ver você morrer congelado."

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Para um diamante qualquer

"- Meu bem, calma aí . . . Por favor permaneça uma criança em algum lugar no seu coração!
- Você não me ama mais? [barulho de carros e gritos ao fundo]
- Não se trata disso...
- Trata-se do que então?!



Eu tenho uma toalha com o número 42 que levo pra todo lugar.
Eu sou jovem e ainda me iludo com minhas esperanças.
Eu tenho a droga da luz elétrica.
Eu sou um ser racional [somos?] e faço parte da porcaria do progresso. Isso não é o bastante pra você?

Eu tenho uma capacidade incrível de conhecer os segredos das pessoas.
E eu tenho um senso maravilhoso de observação(que, por sinal, você nunca percebeu).
É por isso que não perco minhas fichas tentando ligar pra você, pois sei que não está em casa.

Eu tenho todos os doces que você sempre desejou.
E eu tenho as fileiras prontas para você.
Eu tenho os seus diamantes!
E eu conheço a fada que te faz bem...

Mas ainda não te ligarei, pois ainda não haverá ninguém em casa (Hello?! Is there anybody in there?Is there anyone in home?).

Eu tenho os meios para qualquer fim.
E parece que ele está cada vez mais próximo...


Em algumas coisas você não é tão boa.
Como em sorrir, em chorar e mentir.
Algumas pessoas se tornam muito confiantes, babe."

sábado, 17 de julho de 2010

Naquela noite, eles poderiam ter conversado sobre qualquer coisa. Poderiam ter falado sobre a origem da vida, o universo e de tudo mais. Poderiam ter tido aquela conversa de gente que não se conhece muito bem, falando sobre futebol, tevê, colocando a culpa no governo de qualquer coisa que ele talvez nem fosse culpado, sobre como está quente e se questionando quando vai chover. Poderiam ter discutido essas coisas que a gente discute com o chefe, o professor, a mãe ou qualquer outro tipo de autoridade. Poderiam ter falado de planos, filhos, carreira, religião, futebol, política e esses outros assunto que a gente não discute por que sempre acaba em confusão. Em noites assim, a gente fala de coisa que nem se deve falar.

Quem estivesse na Rua Harmônica e entrasse no bar que existe próximo ao fim da rua (que não tem saída) logo veria um casal discutindo sobre, basicamente, qualquer coisa. Ou todas as coisas. Poderia, ainda, pedir uma cerveja gelada enquanto aguarda o prato do dia, o qual é sempre melhor que o do dia anterior, e contemplar a discussão.

Ela parecia ser bem maior enquanto falava. Bem assim como uma gata que se arma para parecer maior antes da investida. A cabeleira loira tornara-se prata sob o luar e os olhos negros indicavam a que ponto(s) olhar na face branca. Ele parecia não se assustar com a intimidação dela e sustentava durante todo o tempo um sorriso de canto de boca.

Quando chegava a vez dele de falar, ela impunha ao ambiente uma serenidade que poucas vezes apareceu por aquelas bandas. Ele continuava com seu sorriso sem alterar a sua postura no embate.

Ficaram a noite inteira conversando no bar. Por fim, ele deu-se conta que concordaria com qualquer coisa que ela dissesse. E ela percebeu que havia muito tempo desde que alguém a ouviu com tamanha atenção.

Ela cheirava a chocolate.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Preto e Branco

"Era uma vez, Deus. Sentindo-se muito solitário, Deus criou um planeta. Depois disso, para lhe fazer companhia, resolveu criar seres para viverem no planeta. Deus estava tão empolgado com sua brilhante idéia que resolveu desenhar, o mais rápido possível, todos os seres que viveriam no planeta. Pegou sua caixa de lápis-de-cor e alguns papéis e pôs-se a desenhar. Gastou horas e horas com isso, imaginando, desenhando, apagando e redesenhando tudo o que gostaria que tivesse no planeta. Com o lápis azul desenhou um grande oceano, vários lagos e rios. Com o lápis verde, coloriu várias florestas pelo planeta. Com o lápis amarelo e com o preto, desenhou as onças, pumas e jaguares. Com o cinza, elefantes, rinocerontes e hipopótamos. Com várias cores desenhou pássaros e peixes. E assim, nesse processo, foi preenchendo a Terra com tudo o que havia imaginado. Contudo, quando chegou a vez de desenhar as pessoas, Deus começou a ficar sem lápis coloridos. Dessa forma, não pôde dar aos seres humanos a mesma diversidade de cores que fora dada aos animais. Mesmo com essa dificuldade, conseguiu se virar muito bem e desenhou milhares de pessoas para o planeta. Entretanto, quando Deus foi desenhar Lucy, só lhe restara o lápis preto. Como tinha pressa, e agora poucos recursos, Deus decidiu empenhar-se ao máximo nesse projeto. Gastou muito, muito tempo desenhando apenas com lápis preto uma garotinha. Deu bastante atenção aos olhos. Desenhou e apagou dezenas de vezes aos mãos, pois queria algo de aspecto frágil, mas que pudesse ter a força de 10 homens de vez em quando. Ficou muito tempo rabiscando os cabelos, fio por fio. Lucy deu muito trabalho e quando ficou pronta Deus teve que criar uma categoria para encaixá-la, e daí nasceu a idéia que temos de perfeição. Ela não tinha sido apenas mais uma das obra do cara que criou tudo, mas tinha sido 'A' criação, 'O' desenho, mais ou menos como 'E'le. Hoje Lucy anda por aí, gabando-se inconscientemente de ter sido produto de apenas um lápis preto no papel branco, sentindo orgulho de ser um dos melhores, e preferidos, desenhos de Deus!"

domingo, 27 de junho de 2010

Carta à Senhorita Mãos Geladas

Ontem sai com o pessoal da faculdade. Nós fomos num lugar legal no centro da cidade. Fazia tempo que a gente não saia junto e, pra ser sincero, já começava a sentir falta. Eu me sinto muito bem com eles, com as diferentes personalidades de cada um. São pessoas realmente muito legais. Você gostaria deles se os conhecesse. Eu me diverti bastante. Senti sua falta em todos os momentos.

Na entrada, enquanto eu remexia minha carteira, lembrei de como você pegava logo as notas mais fáceis para o troco diante da minha sempre falta de jeito com as cédulas. Quando fomos procurar algum lugar pra sentar, lembrei da sua mania de limpeza e de como detestava bancos sujos, e que sempre tirava da bolsa algum lenço ou coisa do tipo e tentava amenizar o problema. Na hora de pedir algo pra comer, visualizei você ali, perguntando ao garçom se o prato que queria pedir tinha carne de porco ou algum tipo de bebida alcoólica, já que não podia comer nada daquilo por causa da sua religião.

Apreciava a idéia de que, de alguma forma, a saudade fosse amenizada com o tempo, mas ao que parece, ele é só combustível. Tudo aquilo com que eu implicava me faz falta.

Embora nada do que eu disser possa trazê-la de volta, eu precisava contar que ainda sinto falta das suas pequenas mão geladas.

sábado, 26 de junho de 2010

Umas palavras

Algum dia você vai ter que me perdoar, mas eu preciso escrever qualquer coisa sobre você. Desculpe-me se não consegui parar de te olhar na festa de hoje, deves ter percebido isso. Mas é que a maneira como cantavas baixinho a música que tocava era hipnotizante. Longe das pessoas, alheia ao que acontecia, brincando com seus cabelos escuros, sentada sozinha, você recitava suas palavras mágicas que criavam um campo iluminado ao seu redor. Você brilhava e ninguém mais notou. Em vários momentos quis lhe falar, mas não sabia como começar, o que dizer. É sempre assim quando estás por perto. Deve ser por causa do seu encanto e das palavras mágicas.

domingo, 13 de junho de 2010

O Coração Amarelo

Uma vez ele me deu seu coração. Era um coração amarelo. Aquilo me marcou porque era estranho ganhar um coração amarelo. Todos os corações que eu havia ganhado dos garotos até aquele momento eram corações grandes, vermelhos, daqueles que enchem os olhos, sabe? Esse não. Era só um coração amarelo, sem muita expressão. Parecia um pequeno chaveiro, daqueles que a gente encontra nas lojinhas.

Sempre pensei que ele sendo quem era teria um coração completamente diferente. Tá certo que eu nunca tinha parado pra pensar bem em como eu achava que era seu coração, mas eu sabia que era diferente. Mas um diferente legal, tipo White Stripes, saca? É, isso mesmo. Tipo White Stripes: um negócio diferente, mas legal, que atrai a atenção das pessoas pela forma única que é. Talvez ele tivesse um coração assim, grande, com listras brancas, vermelhas e pretas e que fosse um virtuose da guitarra! Mas amarelo?! Amarelo não é cor de coração! Amarelo é a cor que a gente usa pra pintar o sol quando estamos no jardim de infância e a professora manda colorir um desenho da nossa casa. Amarelo é cor de banana. Poxa, ele me deu um coração cor-de-banana?! Se ele não fosse quem ele era, eu teria jogado aquele coração cor-de-banana sem graça bem longe na mesma hora que ele me entregou.

Nos conhecemos na escola. Ele era de uma séria anterior à minha. Os amigos dele eram do tipo popular, sabe, daqueles que são conhecidos e conhecem a escola inteira, e a gente acabou se conhecendo. Apesar dos amigos, ele não era bem do tipo popular. Tirando o pessoal da sala dele, eu e duas amigas minhas, ele não falava com mais ninguém. Sem contar que boa parte do pessoal da sala dele não ia muito lá com a sua cara. Pessoalmente, nunca entendi isso. Hero era até um cara legal, inteligente e se esforçava muito para ser divertido. Vai ver que esse pessoal se encaixa naquilo que dizem de a gente temer o que não entende. Se você pensar assim, fica mais fácil sacar o motivo dele ter poucos amigos.

Tem também esse negócio do nome, né? Pô, Hero?! Os pais dele também não ajudaram em nada! Que droga de nome prum garoto! O que aconteceu com Antonio, João, Pedro, Manuel... Com esse nome o pessoal já chega pensando que ele é um daqueles carinhas metidos à besta.

Ele salvou a minha pele várias vezes enquanto ainda estávamos na escola. Teve uma vez que ele até fingiu ser meu namorado numa festa que fomos! Quando lembro dele não consigo pensar em nada de ruim em toda nossa história de amizade. Não, não é que eu só me lembro do que quero lembrar, que seriam as coisas boas, é que realmente não há nada de ruim.

Depois que a escola acabou e entramos em faculdades diferentes continuamos nos falando, mas já não era a mesma coisa. Foi nesse período que ele me deu o coração amarelo. Tinha acabado de voltar de uma viagem e me ligou dizendo que tinha uma coisa importante pra me dar. Claro que eu nunca imaginei que ele queria me dar o coração. Pra falar a verdade, pensei que isso nunca iria acontecer, pois a fase dele me dar o coração era quando estávamos na escola, que éramos grandes amigos. Ele chegou e me deu o coração. Simples assim. Será que ele havia mudado tanto? E que porcaria de amiga eu era que não havia percebido? Fiquei surpresa quando eu desembrulhei o pacote e vi o coração. Acho que ele não percebeu minha surpresa em ver o amarelo do coração - na verdade, eu torço pra isso!

Por muito tempo eu fiquei reclamando do coração estranho que ele me deu, mas só agora percebo que eu é que sou a estranha e nem deveria ter recebido nada. Ele me deu o coração. Era tudo o que ele podia dar. Era aquilo que ele tinha pra me dar e eu só critiquei. A verdade é que eu fiquei com medo de dar o meu coração. Acho que isso o teria feito muito feliz. Só conseguia pensar que, assim como eu, ele só iria ver o lado estranho. Nem passou pela minha cabeça que ele era a pessoa mais doce que eu conheci e que, ao contrário de mim, ele só via o lado bom das coisas. Hoje eu tenho dois corações, ele nenhum.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Pensa

Pensa em se levantar. Pensa em ir ao banheiro. Pensa em tomar banho. Pensa no café, no pão, no açúcar. “Será que vou me atrasar?”. Pensa no trânsito, nas buzinas, nas pessoas chateadas já pela manhã. Pensa nas contas a pagar. “Será que vou me atrasar?”. Pensa no cigarro, no trabalho e no café. Ah, café...! Pensa nos amigos, nos antigos e nos novos. “Quantos são os novos?”. Pensa no que não fez. Pensa no que gostaria de ser. Pensa no que se tornou. Pensa na Sofia. Sofia... Sofia! Pensa no chefe. Pensa no salário, no trabalho e na sua insatisfação. Pensa em como a vida é dura e sua cama é macia. Pensando bem, dormiu o dia todo.